Desafios do ensino na época do domínio das redes sociais e da pós-verdade: visões sobre a Guerra entre Rússia X Ucrânia, em 2022.

 

Por Dayse Lucide Silva Santos.


Ocupar-nos da compreensão dos acontecimentos “do hoje” é tão importante quanto à compreensão de processos “do ontem”. Poucos indivíduos não têm acompanhado o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, no ano de 2022. A indagação que se coloca é: como o ensino tem se ocupado desse assunto em especial, tão comentado pela mídia brasileira e internacional? Você que visita o nosso blog nesse momento, aceita o convite para pensarmos este conflito, sem jamais ter a intenção de fechar o assunto? Esperando a resposta como um longo e imenso SIM, iniciemos, pois, por algumas questões:

1. Por qual razão (ou quais razões) a Rússia se aproximou da China? 

2. Por qual razão os Estados Unidos, juntamente com a Otan, vêm ampliando a sua atuação na Europa? Porque a Ucrânia foi invadida, afinal?

3. Como se dá a dependência econômica europeia tanto dos Estados Unidos, como da Rússia, historicamente?

4. Quais laços históricos e geográficos unem os povos eslavos orientais? 

5. Estamos diante de uma nova ordem mundial no século XXI?

Do ponto de vista teórico, conforme nos ensina Reinhart Koselleck (2006), os acontecimentos podem ser pensados por meio das categorias horizonte de expectativas (passado, o vivido) e pelo espaço de experiência (o futuro, o ainda "não", previsão), entrelaçando passado e futuro. Também, podemos pensar que os regimes de historicidade relacionam e interagem o tempo do indivíduo e da coletividade (HARTOG, 2013).

Diante desse cenário, marcado pela “aceleração do tempo” e diante da experiência vivida, temos cada vez mais a certeza de que o mundo globalizado, da dita "pós-verdade" requer não apenas o levantamento de informações, mas sobretudo a sua análise e compreensão, dando o passo para transformar a informação em conhecimento e assim, sucessivamente. 

        Prosseguindo no diálogo, nós, professores do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, podemos propor que os nossos estudantes realizem um levantamento de informações nos ambientes de mídia para compreendermos as diferentes visões sobre um dado assunto, no caso, a Guerra entre Ucrânia e Rússia. (Bem, claro que um projeto de pesquisa nessa direção vem a calhar, não é mesmo?)

Notamos que o fenômeno das mídias digitais vem impactando os formatos de ensino das unidades escolares e as maneiras de aprender, de desenvolver e demonstrar algumas reflexões que nos conduzem a um aprofundamento das narrativas histórica e geográfica. Dessa maneira, a compreensão sobre os "olhares" existentes nas mídias sociais sobre a Guerra entre Rússia e Ucrânia pode ser particularmente rica, visto que ensinar diante da ocorrência de desafios tão grandes e da disponibilização de fartas informações, a aprendizagem significativa tem melhores condições de ocorrer se nos ocuparmos dessas tecnologias nas aulas com vistas a exercitar a disponibilidade da informação em conhecimento efetivo, cuja implementação só ocorrerá “ao perguntar, ao explicar, ao compreender e ao posicionar” diante da complexidade do mundo atual.

Várias propostas podem ser feitas, mas sugerirmos propor o aproveitamento do momento em que vivemos, qual seja, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia no século XXI, para explorarmos várias questões ligadas às mídias hoje, problematizando e ensinando o desenvolvimento de um olhar complexo sobre os problemas dessa natureza por nós vivenciados. A centralidade de um estudo nessa linha estaria em realizar levantamentos sobre diferentes opiniões jornalísticas e suas fragilidades diante de análises histórico-geográficas.

Isto posto, entendamos que à História o conceito de identidade é forte, todavia, a ela é delegada também o papel de construir a noção de “consciência histórica” nos sujeito sociais. Melhor dizendo: é preciso estimular nos sujeitos históricos que eles se vêm como partícipes dos processos (ainda que em andamento), que os fatos não ocorrem "por ocorrer", não são ao acaso, visto que nos transformamos e somos impactados pelo processo tendo ou não consciência do mesmo. Assim, as relações não são estáticas e a sociedade está em pleno movimento de construção e de desconstrução. Carlo Ginzburg, a esse respeito, afirmou:

"Todos usam a internet. Eu também. Todos falam sobre a internet. Eu também. Em tal tópico, o risco de ser banal é grande demais. Eu resolvi correr este risco, porque a revolução tecnológica que está ocorrendo perante nossos olhos e que modificou profundamente nossa existência mesmo nos aspectos mais triviais do dia-a-dia deve ser analisada em suas implicações". (Carlo Ginzburg, Fronteiras do Pensamento, 2011)

Concordando com o autor, buscamos desenvolver um projeto de pesquisa e de ensino que se ocupa do levantamento das diferentes opiniões veiculadas na internet, em sites jornalísticos e opinativos de mídia livre, sobre o desenrolar da Guerra entre Ucrânia e Rússia; as razões de tal guerra oferecidas pelos países envolvidos, bem como a compreensão dos fundamentos históricos que subjazem este conflito.

Do ponto de vista metodológico, elencamos as seguintes possibilidades: 1. Levantar opiniões em pelo menos 10 canais midiáticos diferentes sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, tanto nacionais como internacionais; 2. Escolher documentários sobre a temática que trata a Rússia e os Estados Unidos (também a OTAN) nos século XXI; 3. Selecionar opiniões na mídia de origem russa e norte americana com vistas a entender as razões históricas desse conflito; 4. Compreender como os vídeos e demais registros digitais podem ser utilizados no trabalho do historiador e do geógrafo ao se debruçarem sobre os acontecimentos e construção das territorialidades no mundo atual no que toca a questão sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia; 5. Sistematizar o conhecimento reunido e compreender as questões territoriais/políticas/geográficas/históricas que se complementam para a compreensão do conflito em questão, com vistas da disponibilizar tais levantamentos realizados.

Considerando que o cenário do ciberespaço tem ocupado um lugar de destaque como fonte de informação, este torna-se um importante local de fonte histórica, bem como apresenta territorialidades que tendem a mudar a percepção do mundo no século XXI. Dessa maneira, o YouTube, por exemplo, repositório de vídeo e site com maior número de acessos da internet, causou uma revolução na forma de produção e compartilhamento de imagens (SANTOS; WEBER, 2014). Os vídeos nele hospedados são compartilhados em diversas redes sociais, como WhatsApp, Facebook e Twitter expandindo ainda mais seu alcance e, por esta razão, explorar a Guerra entre a Ucrânia e a Rússia, seus possíveis desdobramentos na atualidade e a compreensão dos processos históricos na conformação do mundo atual. Certamente há aí um problema intrínseco: os argumentos apresentados são de fato embasados na realidade, na busca da verdade, ou se baseiam em meias-verdades e Fake News? Importante fornecer aos estudantes um ferramental capaz de desenvolver o pensamento autônomo e crítico, com sutil capacidade de distinção analítica dos argumentos disponibilizados a todos via internet.

Desta maneira, caminhando um pouco mais em nosso diálogo, mas estimulando a porta aberta para outras “invenções/proposições”, e pensando a nossa atuação no IFNMG, bem que poderíamos mergulhar nesses tempos de "cibercultura", compreendendo que as imagens dessas novas mídias digitais são outro texto e estimula outra forma de aprender (FERNANDES, 2019).

Convite feito: vamos criar ações/projetos/discussões dentre outros que sejam capazes de “afinar” o nosso olhar para a complexidade do mundo atual pelo viés das Ciências Humanas?


Referências:

BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BRINCO, Naicon Souza e CABRAL, Maria Aparecida da silva. Ensino de História, aprendizagem significativa e a atuação do professor: desafios do tempo presente. Revista de História e Ensino, ANPUH, vol. 9, n.18, 2020. Disponível em: <https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/view/689>, acesso em 05/04/2022.

CANDAU, Vera. Memória (s), Diálogos e Buscas: Aprendendo e Ensinando Didática. In: ______. Didática: Questões Contemporâneas. Rio de Janeiro: Forma e Ação, 2009. p. 29-46.

DOSSE, François. História do tempo presente e historiografia. Revista Tempo e Argumento. Revista do Programa de Pós-graduação em História, Florianópolis, v. 4, n. 1, p. 5-22, jan./jun. 2012.

GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. IN: GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. Editora da UFMG, 1999.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Rio de Janeiro: PUC Rio/Contratempo, 2006.

LÉVY, Pierre. O que é o Virtual. São Paulo: Ed. 34, 1996.

SILVA, Marcelo Gomes. Para que serve o Ensino de História? Disponível em: <http://rbeducacaobasica.com.br/pra-que-serve-o-ensino-de-historia-um-debate-a-partir-da-formacao-de-professores/> acesso em 05/04/2022.

IMAGEM DISPONÍVEL EM: HTTPS://F.I.UOL.COM.BR/FOTOGRAFIA/2022/04/26/1651000018626842D20866A_1651000018_3X2_SM.JPG ACESSO EM 27/04/2022.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Alguns olhares sobre a educação no contexto da pandemia: tecnologia e inclusão - diálogos necessários.

TEORIA DA APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA (TAS): UM DIÁLOGO NECESSÁRIO NO ENSINO MÉDIO

Formação docente na Educação Profissional e Tecnológica