Acolher e integrar: uma questão de permanência

 Por Iza Manuella Aires Cotrim-Guimarães

A permanência dos estudantes é um tema que tem provocado importantes discussões no meio acadêmico e nas instituições de ensino, desde muito antes da pandemia.



Vários estudos e documentos orientadores têm levantado causas e fatores que influenciam a decisão do(da) estudante abandonar o curso ou instituição escolar.

O que fica evidenciado é que essa mais de centena de fatores age de forma muito complexa, segundo as peculiaridades e o contexto de cada estudante, muitas vezes agindo em conjunto. O que até contribui para delimitar grupos de risco...

Mas como enfrentar esse problema pensando na individualidade de cada estudante e considerando essa numerosa lista de causas e fatores? Essa é uma questão desafiadora e por isso alguns estudos, sem desconsiderar a questão da evasão, têm voltado o seu foco para os elementos que podem contribuir para a permanência desses estudantes, para sua persistência em relação à continuidade e conclusão do curso na instituição.

Em nosso Instituto Federal já temos alguns estudos sobre evasão, conhecemos bem alguns dos problemas que afetam e influenciam nossos estudantes sobre permanecer ou não na instituição. A questão é, o que temos feito e o que pode ainda ser feito pra que esses estudantes persistam, permaneçam e concluam seus estudos conosco?

Vamos agora provocar algumas reflexões sobre questões relacionadas à evasão e permanência dos estudantes:

Em primeiro lugar, destacamos a relação entre desigualdades sociais e evasão escolar. Quem são os alunos que evadem? Quem são os alunos mais propensos a evadir? Como já foi falado, há um elenco de fatores e causas que motivam esse fenômeno. Mas estudos também demonstram que os estudantes que compõem os grupos de risco possuem algumas características afins que aumentam sua probabilidade de evadir (ainda que esses fatores não sejam deterministas).

Essas características estão relacionadas à sua condição socioeconômica e aspectos associados, como por exemplo, escola de origem, raça e cor da pele, composição familiar e acesso ao capital cultural. Qual o papel da instituição, neste caso? Como identificar esses estudantes e, principalmente, como prestar o suporte adequado considerando as condições, dificuldades e características particulares de cada um? Ou a instituição deveria “lavar suas mãos”, já que esses problemas são externos a ela?

As instituições de ensino têm grande responsabilidade sobre a permanência dos estudantes (ainda que não seja exclusividade dela), já que é seu papel oferecer a todos os estudantes os recursos e condições necessários para que possam concluir os cursos. E quando falamos “instituições de ensino” estamos nos referindo, de fato, aos profissionais que compõem e atuam na e pela instituição.

Mas algumas ações institucionais, individuais e/ou coletivas, acabam influenciando a decisão do estudante abandonar o curso. Por exemplo, Rumberger e Thomas (2000), importantes pesquisadores sobre o fenômeno da evasão, analisaram diversos estudos sobre o tema e verificaram que a escola exerce grande influência sobre a evasão escolar, especialmente quanto aos estudantes causadores de “problemas” e aos que apresentam dificuldades relacionadas ao processo pedagógico. Uma vez que a instituição se esforça para obter bons resultados nas avaliações externas e outros testes, a evasão de estudantes “problemáticos”, com dificuldades ou “com falta de base”, como costumamos dizer, acaba sendo naturalizada no meio escolar e acadêmico.

É muito a se pensar, não é?! Como temos agido com esses estudantes em nosso IF?

Não podemos desconsiderar que a evasão também é reflexo do compromisso e da qualidade dos esforços dos estudantes. Mas da instituição espera-se a habilidade de “conquistar”, integrar os estudantes ao tecido social e intelectual da vida escolar e acadêmica. Essa constatação é de uma grande referência mundial nos estudos sobre evasão e permanência, o autor americano Vincent Tinto. Em seus estudos ele aprofundou o conhecimento sobre as questões relacionadas à evasão e, mais recentemente, foi capaz de identificar elementos e ações que contribuem de forma mais geral e significativa para que os estudantes permaneçam no curso/instituição. Apesar de seus estudos se centralizarem no Ensino Superior, sua obra pode ser apropriada por instituições e cursos de todos os tipos e níveis, como têm feito estudiosos dessa temática no Brasil.

O que podemos aprender com ele é que, ainda que estudantes e/ou grupos de estudantes apresentem diferentes motivos e perspectivas em relação à evasão, algumas ações e elementos de caráter mais geral verificados nessa trama, que é a instituição escolar, têm afetado diretamente as necessidades individuais dos estudantes e contribuído fortemente para sua permanência. Por exemplo: programas de assistência financeira, de residência e transporte estudantil e apoio pedagógico consistente. Outras ações se referem à organização do trabalho pedagógico, o que envolve a estruturação curricular, do tempo e espaço escolares e sistema de avaliação e recuperação.

Reparem que estas ações, ainda que de cunho institucional, agem diretamente sobre as particularidades, as percepções e perspectivas individuais dos estudantes. Ainda que vários deles apresentem diferentes perspectivas quanto à possibilidade de evadir, um determinado programa ou ação institucional pode agir positivamente sobre esses estudantes, criando condições propícias para sua permanência.

 Mas, como podemos agir, cada um de nós, docentes, técnicos-administrativos e outros profissionais da educação, de forma a colaborar com esse processo?

Tinto também ressalta que a integração dos estudantes à vida social e intelectual da instituição, incluindo sua relação com o corpo docente, discente e com outros profissionais, é fundamental para sua persistência em relação ao curso. Segundo ele, estudantes mais envolvidos com a comunidade acadêmica estão mais propensos a investir seus esforços no processo de ensino e aprendizagem. O que pode ser incentivado para além da sala de aula, também por meio do envolvimento dos estudantes com outros projetos institucionais, programas de pesquisa, ensino e extensão, atividades de cunho artístico-cultural, desportivo, científico, de forma a se construir essa identidade com o curso, com a instituição, esse sentimento de pertença. Então, além de colaborar diretamente com as ações e programas institucionais, podemos potencializar nossa atuação e intervenção diretamente sobre os estudantes.

Cabe ainda à instituição conhecer à fundo seus alunos, levantar e analisar informações que já têm sido disponibilizadas, como os questionários socioeconômicos que acompanham o processo seletivo e a matrícula. Realizar diagnóstico e se atentar aos grupos de risco e, assim, elaborar planos de intervenção, acompanhamento e suporte.

E a cada um de nós, individualmente, cabe estar atento e vigilante quanto às dificuldades, necessidades e expectativa de evasão. Estudos como os de Tinto têm revelado que o acolhimento, a relação de confiança e proximidade entre docentes, profissionais da educação em geral e os estudantes têm contribuído significativamente para a permanência.

Mas e quanto à pandemia? Novos contextos, muitas realidades... como lidar com o problema da evasão? Como pensar em permanência nesse contexto de atividades não presenciais?

Da mesma forma, compreendemos que diferentes fatores e perspectivas têm influenciado a decisão de muitos estudantes quanto a permanecer ou não nos cursos durante as atividades não presenciais (ANPs). Como lidar com esse fenômeno, tendo em vista que, mesmo nós, profissionais da educação, temos aprendido e ainda temos muito a aprender a cada dia desse novo cenário que nos foi imposto pela pandemia?

Esses mesmos elementos apresentados ao longo deste texto podem ser apropriados em momentos de ANPs: no âmbito institucional, programas assistenciais voltados a essa nova realidade têm sido fundamentais para que os estudantes permaneçam nos cursos.

De forma mais direta, no que tange à relação professor/aluno, deve-se promover o envolvimento dos estudantes, essa proximidade com os colegas, professores e outros profissionais.

Estar aberto ao diálogo, ser capaz de ouvi-los, conhecer suas dificuldades e angústias e, sempre que necessário, dar o devido encaminhamento aos setores e profissionais responsáveis pelo apoio pedagógico e assistência aos educandos são ações que poderão contribuir para sua permanência.

 

 PARA CONHECER MAIS SOBRE OS ESTUDOS DE TINTO

TINTO, Vincent. Leaving College: rethinking the causes and cures of student attrition. 2 ed. Chicago, USA: The University of Chicago Press, 1993.

__________. Definir la Deserción: Una Cuestión de Perspectiva. Revista de La Educacion Superior. México, D.F. v. 18, n. 71, jul./set. 1989. Disponível em < http://publicaciones.anuies.mx/revista/71/1/3/es/definir-la-desercion-una-cuestion-de-perspectiva> Acesso em 10 out. 2019.

__________. Promoting Student Retention through classroom practice. In: International Conference “Enhamcing Student Retention: using international Policy and Practice”. Amsterdam, November 5-7, 2003.. Disponível em < http://gaia.flemingc.on.ca/~jmior/EDu705Humber/Articles/Tinto%20Retention.pdf > Acesso em 15 out. 2019.

__________. Student Retention: What Next? In: National Conference on Student Recruitment, Marketing, and Retention, Washington, D.C., July 27-3, 2005. Disponível em < https://vtinto.expressions.syr.edu/wp-content/uploads/2013/01/Student-Retention-What-Next_.pdf> Acesso em 15 out. 2019.

__________.   Enhancing student success:  Taking the classroom success seriously.  The International Journal of the First Year in Higher Education, v. 03, n. 01, p 1-8, mar. 2012. Disponível em < https://fyhejournal.com/article/download/119/120/119-1-666-1-10-20120315.pdf> Acesso em 24 out. 2019.

 

PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO

CARMO, Gerson Tavares do. (Org.). Sentidos da permanência na educação: o anúncio de uma construção coletiva. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2016.

 __________. Dos estudos da evasão para os da permanência e do êxito escolar: um giro paradigmático. Campos dos Goytacazes – RJ: Brasil Multicultural, 2018.

 COTRIM-GUIMARÃES, Iza Manuella Aires; DORE, Rosemary. Evasão escolar no Ensino Médio integrado e condições socioeconômicas dos estudantes: um estudo de caso. In: V COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E EVASÃO ESCOLAR, 2018, São Luís (MA). Anais do V Colóquio Internacional sobre Educação Profissional e Evasão Escolar. São Luís (MA): IFMA, v.1, p. 263-284.

DORE, Rosemary; LÜSCHER, Ana Zuleima. Permanência e Evasão na Educação Técnica de Nível Médio em Minas Gerais. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v.41, n.144, p. 772 – 789, set/dez 2011.

DORE, Rosemary; SALES, Paula Elizabeth Nogueira; SILVA, Carlos Eduardo Guerra (Orgs.). Educação Profissional e evasão escolar: contextos e perspectivas. Belo Horizonte: RIMEPES, 2017.

RUMBERGER, Rumberger; LIM, Sun Ah. Why students drop out of school: A review of 25 years of research. Santa Barbara: University of California, 2008.

RUMBERGER, Russell W.; THOMAS, Scott L. The distribution of dropout and turnover rates among urban and suburban high schools. Sociology of Education, v.73, p. 39-67, Jan. 2000.

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